Por que quem cuida demora tanto a procurar ajuda?
Porque existe uma hierarquia silenciosa do sofrimento dentro das famílias: quem está doente tem direito de sofrer, os outros têm o dever de sustentar. Quem cuida internaliza isso e passa a achar que o próprio cansaço é egoísmo.
O resultado é uma pessoa que atravessa meses ou anos sem dizer a ninguém que está no limite, e que só procura ajuda quando o corpo ou o casamento dá sinal.
É normal sentir raiva de quem está doente?
É frequente, e quase nunca é dito. Raiva do adoecimento, da dependência que ele criou, da vida que foi suspensa, e às vezes da própria pessoa — por não colaborar com o tratamento, por ser difícil, ou simplesmente por estar doente.
Sentir isso não faz de você uma pessoa ruim. O que costuma adoecer não é a raiva, e sim o esforço permanente de fingir que ela não existe.
O consultório é um dos poucos lugares em que esse conteúdo pode ser dito sem consequência para a família.
E a culpa de querer descanso?
Vem junto, sempre. Querer um fim de semana livre, querer que acabe, querer a vida de volta. Em situações de doença longa, é comum aparecer até o desejo de que a pessoa morra, seguido imediatamente de horror consigo mesmo.
Esses pensamentos são parte conhecida da experiência de cuidar prolongado. Dizê-los em voz alta, num lugar seguro, costuma tirar deles boa parte do peso.
Quem cuida de quem envelhece está incluído?
Está. A inversão de papéis com um pai ou uma mãe que passa a depender é uma das transições mais difíceis de uma família, e vem acompanhada de conflito entre irmãos sobre divisão de tarefas, dinheiro e decisões.
Esse conjunto é trabalhado também em orientação familiar, a partir de quem procura.
O que a psicoterapia oferece a um cuidador?
Um lugar que é seu. Não uma orientação sobre como cuidar melhor do outro, e sim um espaço em que você é o assunto — o que, para quem cuida, costuma ser uma experiência esquecida.
A psicóloga Maria Socorro de Menezes trabalha com adultos há 25 anos e atende cuidadores independentemente de a pessoa doente estar ou não em acompanhamento.
Atendimento psicológico não é serviço de emergência. Em situação de risco à vida, ligue para o CVV no 188, para o SAMU no 192 ou procure o CAPS ou a UPA mais próxima.
Revisado por Maria Socorro de Menezes, psicóloga. Ver formação e atuação.