Preciso estar mal o suficiente?
Não. Essa é provavelmente a crença que mais adia a procura. Muita gente espera atingir um estado que julga grave o bastante para "merecer" ajuda, e nesse meio-tempo passa anos funcionando mal.
A psicóloga Maria Socorro de Menezes atende bastante gente que está de pé: trabalha, cuida de família, cumpre o que precisa, e ao mesmo tempo sente que está vivendo no automático. Isso é motivo suficiente.
Que sinais aparecem com mais frequência?
Não são sintomas de manual, são descrições de quem chega:
- Você acorda já cansado, e o descanso do fim de semana não repõe nada.
- Coisas que antes davam prazer viraram obrigação, ou pararam de importar.
- Você evita situações que antes eram simples: um telefonema, um encontro, uma reunião.
- A mesma discussão se repete em casa há anos, sempre do mesmo jeito.
- Você revisa conversas antigas por horas, procurando o que fez de errado.
- Você está segurando tudo sozinho e não consegue pedir ajuda a ninguém.
- Uma perda aconteceu e a vida não retomou em nenhuma frente.
- Você percebe que está bebendo, comprando ou trabalhando mais para não sentir.
Nenhum desses itens é diagnóstico. Reconhecer-se em dois ou três já é motivo bom para uma primeira conversa.
E se eu não souber explicar o que sinto?
Isso não atrapalha. "Não sei o que eu tenho, só sei que não está bom" é um começo completamente utilizável, e é como boa parte dos processos começa.
Nomear o que acontece costuma ser parte do trabalho, e não uma exigência prévia.
Quando o caso é urgência e não agendamento?
Quando existe ideia de morte, plano de se machucar, ou a sensação de não conseguir garantir a própria segurança. Nessa situação não se espera horário de consultório.
Ligue para o CVV no 188, disponível 24 horas, ou para o SAMU no 192, ou procure o CAPS ou a UPA mais próximos. Se houver alguém por perto, peça para não ficar sozinho.
Meu problema é pequeno perto do dos outros
Sofrimento não funciona por comparação. A existência de alguém em situação pior não torna a sua menos real, e o consultório não trabalha com fila de gravidade.
Essa frase, aliás, costuma ser em si um dado interessante: quem se apresenta desqualificando o próprio sofrimento normalmente faz isso em muitas outras áreas da vida.
Atendimento psicológico não é serviço de emergência. Em situação de risco à vida, ligue para o CVV no 188, para o SAMU no 192 ou procure o CAPS ou a UPA mais próxima.
Revisado por Maria Socorro de Menezes, psicóloga. Ver formação e atuação.